Os Jogos Olímpicos de Tóquio já entraram para a história por terem sido os primeiros, em mais de um século, a serem adiados (eles já foram cancelados, por causa das guerras mundiais, mas nunca adiados). Mas há outros superlativos que colocam estas Olimpíadas em evidência. Um deles é o investimento: US$ 15,8 bilhões (quase R$ 84 bilhões), o que a torna a edição mais cara dos Jogos – mesmo com o aproveitamento de algumas instalações das Olimpíadas de 1964 e da Copa de 2002.

Parte desse valor se explica pelos gastos no que há de mais moderno em técnicas de sustentabilidade e preservação ambiental. As Olimpíadas querem deixar um legado verde, o que inclui soluções simples e eficientes.

Inspirada pelas inovações dos organizadores, e de olho na vitrine que o maior evento esportivo do planeta oferece, uma empresa de Guarulhos, na Grande São Paulo, apresentou ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) a ideia de usar malas com revestimento de plástico reciclado. Em menos de 11 meses no mercado, a tecnologia implementada por eles já retirou 136 mil garrafinhas, ou mais de 2 mil toneladas de plástico, do meio ambiente. Há dez anos, a Kameleon consertava malas, mochilas e acessórios. A pandemia derrubou os negócios, o que motivou os sócios Luciano Pereira, Marco Pereira e Fábio Carleto a tirarem da gaveta uma antiga ideia: revestir seus produtos com plástico de garrafas PET recicladas. O diretor comercial Luciano Pereira explica que o plástico vem de cooperativas de catadores, intermediado por empresas parceiras de São Paulo e do Sul do país.

Segundo ele, uma pochete é produzida com até 18 garrafinhas PET de 500 ml. Já uma mala pequena, dessas que não precisam ser despachadas em viagens de avião, demanda 48 garrafas de 500 ml ou 32 de 2 litros. O plástico chega à fábrica em chapas, e uma máquina, desenvolvida por eles, molda as malas.

Reciclagem em expansão

Mas o pulo do gato da Kameleon não foi dado no escuro. A aposta da marca se deu em acordo com um mercado em crescimento no país: a reciclagem de garrafas PET. A Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet) afirma que a indústria de reciclagem do material no Brasil é uma das mais desenvolvidas do mundo, com um grande espectro de aplicações para a matéria-prima. Em 2019, das 311 toneladas de embalagens de PET descartadas, 55% foram recicladas — em 2018, a taxa foi de 33%.

Além do evidente fator ecológico de retirar plástico do meio ambiente, a Kameleon garante que as malas ganham em resistência e durabilidade. “Já tentou rasgar uma garrafa de refrigerante? É praticamente impossível. O plástico PET, por incrível que pareça, é um dos materiais mais caros do mercado, devido à sua durabilidade (mais de 500 anos para se decompor na natureza) e por sua resistência mecânica”, diz Pereira.

Com isso, o COB abraçou a proposta e a Kameleon criou a linha Time Brasil. Todos os 279 atletas do país foram para o Japão com uma pochete da marca. Já os dirigentes terão uma mala de mão. Vale lembrar que os produtos não são uma exclusividade dos atletas olímpicos. Os clientes que antes compravam malas dos personagens de Looney Tunes, Friends ou Mortal Kombat também podem adquirir bagagens personalizadas com a temática “Time Brasil”.

Para Pereira, é uma vitória. A Kameleon investiu quatro anos em pesquisa e desenvolvimento até patentear o processo. “Somos pioneiros no mundo”, diz. Malas e mochilas sustentáveis não são uma novidade, no entanto. Na Itália, desde a década passada, a marca Malefatte Venezia fabrica bolsas em parceria com um programa de reabilitação de prisioneiros de Veneza, que usam plástico PVC de banners e outras peças publicitárias para montar os acessórios. Já a portuguesa Maria Maleta utiliza, desde 2013, tecidos veganos e materiais biodegradáveis na confecção de seus produtos.

Fonte:

Pâmela Carbonari
Colaboração para Ecoa, de Florianópolis (SC)

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